No dia 8 de Março homenageia-se a mulher trabalhadora, a mulher que lutou por um ordenado justo, a mulher que ainda hoje carrega turnos duplos em casa e no emprego. É uma data merecida. Mas há uma mulher que fica sistematicamente de fora desta homenagem: a bruxa.
Achas estranho juntar as duas coisas? Eu também achei — durante anos. Até perceber que a mulher queimada por saber demais e a mulher que marchou por um salário igual lutavam, no fundo, pela mesma coisa: o direito de existir nos seus próprios termos.
Porque É Que as Bruxas Não Entram nas Homenagens do Dia da Mulher?
As bruxas ficam de fora porque a palavra ainda carrega um estigma que nunca foi devidamente desfeito. O Dia Internacional da Mulher nasceu no início do século XX, ligado a greves e reivindicações salariais — uma luta reconhecida, com data e nome. A perseguição às bruxas aconteceu séculos antes, sem organização, sem bandeira, sem sequer o direito à própria versão da história.
Enquanto a operária tem estátua, a bruxa tem fogueira. E isso diz muito sobre que tipo de resistência feminina a história decidiu lembrar.
Quem Eram, Na Realidade, as Mulheres Chamadas de Bruxas?
Na sua maioria, as chamadas bruxas eram as curandeiras, as parteiras e as guardiãs do saber sobre o corpo das outras mulheres. Antes de existir enfermagem com diploma, era esta mulher da aldeia — a que sabia qual erva baixava a febre e qual planta ajudava um parto difícil — quem cuidava de quem mais ninguém queria tocar.
Isto toca-me de perto. Sou enfermeira. E sei bem o peso de ser a pessoa a quem recorrem quando o corpo já não aguenta e a ciência oficial ainda não chegou à porta de casa. A diferença é que hoje tenho um diploma a validar esse saber. Estas mulheres não tinham. Tinham conhecimento acumulado, transmitido de mãe para filha, de vizinha para vizinha — e foi exactamente esse conhecimento independente da autoridade oficial que as tornou perigosas aos olhos de quem mandava.
Não foi feitiçaria que se perseguiu. Foi autonomia.
Há um pormenor que poucas homenagens mencionam: muitas destas mulheres eram também as primeiras a serem chamadas quando algo corria mal — um parto complicado, uma febre que não baixava, uma criança que não parava de chorar. Confiava-se nelas em segredo e acusava-se em público. É um padrão que ainda hoje reconheço no meu trabalho: a mulher a quem todos recorrem em privado, mas a quem ninguém dá crédito quando fala por si própria em voz alta.
A Perseguição às Bruxas em Portugal Foi Diferente do Resto da Europa
Em Portugal, a perseguição às bruxas foi menor do que na Alemanha, na Escócia ou em Espanha, mas não deixou de existir. Estão documentadas sete execuções por feitiçaria em solo português — um número baixo quando comparado com as dezenas de milhares registadas na Europa central, mas que não torna a história menos real para as sete mulheres que a viveram.
A razão para este número baixo não foi tolerância. Foi prioridade. A Inquisição Portuguesa, instaurada em 1536, gastou a maior parte da sua energia a perseguir cristãos-novos e criptojudeus, deixando a feitiçaria numa espécie de segundo plano processual. Isto não significa que as mulheres suspeitas de bruxaria tenham ficado em paz — significa apenas que o aparelho que as perseguiu foi, sobretudo, secular e não eclesiástico.
O episódio mais conhecido chama-se o julgamento das bruxas de Lisboa, em 1559. Cinco mulheres foram levadas de Aveiro até Lisboa e queimadas em auto-de-fé no Rossio — não por ordem directa da Inquisição, mas por decisão do poder secular, com a rainha regente D. Catarina a promover investigações que envolveram ainda mais duas dezenas de pessoas. Se cresceste a achar que “isso não aconteceu cá”, vale a pena saberes que aconteceu. Só não teve o alcance que teve noutros países.
A Caça às Bruxas e a Luta Operária Nasceram da Mesma Raiz
Ambas nasceram da mesma recusa: a de aceitar que uma mulher decide por si própria o que faz com o seu corpo, o seu tempo e o seu conhecimento. A caça às bruxas, entre os séculos XV e XVIII, e a luta operária do início do século XX separam-se por trezentos anos de história — mas partilham o mesmo alvo: a mulher que não se encaixa.
A bruxa não se encaixava porque curava sem licença da Igreja. A operária não se encaixava porque exigia um lugar que não lhe queriam dar na fábrica. Muda o século, muda o vocabulário da acusação — bruxaria de um lado, ambição a mais do outro — mas o mecanismo de controlo é o mesmo. Sempre que uma mulher sai do sítio que lhe foi destinado, alguém arranja uma palavra para a fazer voltar a ele.
O Que a Bruxaria Ainda Ensina Sobre Resistência Feminina
A bruxaria ensina que o corpo, a natureza e o conhecimento de uma mulher lhe pertencem, mesmo quando ninguém validou esse conhecimento. Isto não é romantismo histórico. É uma distinção que continua a fazer falta.
Ainda hoje há quem só confie numa sensação, num sintoma ou numa intuição depois de um médico, um especialista ou uma figura de autoridade a confirmar. E a mulher fica a meio caminho — a duvidar de si própria enquanto espera por validação externa. A bruxa não esperava. Observava, testava, confiava no que o corpo e a terra lhe mostravam. Isso é uma forma de escuta que qualquer mulher exausta de hoje precisa de recuperar: a que já não pede autorização para confiar em si.
Não estou a dizer que dispenses a medicina — longe disso. Estou a dizer que a bruxa te lembra que a intuição também é dado clínico. Só que ninguém te ensinou a lê-lo.
Como Honrares as Bruxas Que Vieram Antes de Ti
Honras estas mulheres quando voltas a confiar no que o teu corpo te diz antes de precisares de uma crise para o ouvir. A homenagem certa não é uma vela acesa uma vez por ano — é uma prática que sustentas o resto do tempo.
Um ponto de partida simples: recupera a relação com as ervas que estas mulheres conheciam de cor. Não precisas de saber tudo de uma vez. Só precisas de começar a olhar para uma planta como ferramenta, e não como decoração de jardim. Se quiseres um ponto de entrada estruturado, tenho um guia completo com onze formas de usar ervas mágicas (lilianavieira.com/ervas-magicas-como-usar/) que junta o essencial sem te sobrecarregar. E se preferires começar pelas propriedades de cada planta antes dos rituais, este outro artigo sobre dez ervas mágicas e para que servem (lilianavieira.com/10-ervas-magicas-propriedades/) é um bom mapa.
Outra forma de honrar estas mulheres é simplesmente parar de pedir desculpa por te interessares por isto. Elas morreram por um interesse que hoje podes ter em segurança, à luz do dia, sem esconder de ninguém. Usa esse privilégio.
E há uma terceira forma, mais silenciosa: parar de tratar a tua intuição como um capricho. Da próxima vez que sentires que algo não está bem — num sítio, numa relação, no teu próprio corpo — antes de precisares de prova para acreditar em ti, experimenta simplesmente confiar. Foi essa confiança, sem pedir licença a ninguém, que estas mulheres pagaram caro para defender.
Uma Luta Que Continua
O Dia Internacional da Mulher continua actual porque a igualdade continua incompleta. Mas antes de acender uma vela às operárias que vieram antes de nós, acende também uma às bruxas — às que curavam sem diploma, às que confiavam no que sabiam mesmo sem ninguém a validar, às que pagaram com a vida o direito de ser diferentes.
A todas as minhas antepassadas que abriram caminho para que hoje eu me possa chamar bruxa em segurança: obrigada. Que um dia não precisemos de um dia para lembrar isto.
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