Casacos e aventais pendurados em cabides, com um cabide vazio ao centro

Tentei Responder “Quem És Tu?” e Só Me Saíram Papéis

Tentei Responder “Quem És Tu?” e Só Me Saíram Papéis

Publicado a 24 de Junho de 2026.

Há uns meses vi um episódio de uma série chamada The Irrational. É sobre um professor, o Alec Mercer, que usa psicologia comportamental para resolver casos complicados.

Num episódio, ele entra na sala de aula e diz aos alunos que o conhecem como professor. Mas que tem outros papéis na vida, e descreve alguns.

Depois diz a coisa que me ficou: temos todos vários papéis, mas o problema começa quando esses papéis ganham vida própria, mais forte do que a pessoa que os veste. Quando assumimos demasiados ao mesmo tempo, fica difícil lembrarmo-nos do que é real e do que é só desempenho.

Fiquei ali sentada, a pensar na morte da bezerra, sem conseguir desviar disto.

Porque foi exactamente o que me aconteceu a mim.

Há uns tempos caí numa pergunta. Não me lembro onde a li, mas lembro-me perfeitamente do que me fez.

Quem és tu?

E eu, que já investiguei a vida toda, em hospitais, em sessões, nas séries que vejo, andei à nora com uma pergunta destas tão simples.

Tentei responder.

Sou enfermeira, sou mãe, sou filha, sou esposa, sou bruxa.

E parei.

Porque todas as respostas que me ocorriam eram papéis. Coisas que faço. Coisas que sou para alguém. Meti os pés pelas mãos a tentar explicar-me a mim mesma, e no fim ficou tudo na mesma: nenhuma resposta respondia à pergunta.

Fiquei ali sentada, à procura de mim por trás de tudo isso, e não encontrei ninguém em casa.

Um Papel Pode Mesmo Substituir Quem Somos?

Um papel pode substituir quem somos quando o repetimos todos os dias sem nunca o despir. Não é uma roupa de trabalho que se tira ao fim do turno. Cola-se. Começa a falar pela nossa boca. A decidir por nós o que sentimos antes de sentirmos.

Achei estranho da primeira vez que dei por isso. Da segunda, já não.

Reparei nisto de forma muito concreta em casa. Chega o Filipe com um problema qualquer do trabalho, e antes de sentir fosse o que fosse, já estava a resolver como mãe. Chega o David cansado do trabalho, e antes de sentir fosse o que fosse, já estava a cuidar dele como esposa. O papel entra sempre primeiro. A pessoa que sou vem atrás, a correr, sem tempo de chegar.

Porque É Que as Respostas Sobre Quem Somos Saem Sempre em Função dos Outros?

As respostas saem em função dos outros porque aprendemos a definir-nos pela função que temos para alguém, nunca pela nossa própria existência. Filha de. Mãe de. Esposa de. Enfermeira de.

De, de, de.

Nunca eu.

Nem reparamos que fazemos isto. É tão automático como respirar, ou como o Oreo aparecer sempre que abro uma lata de atum. Ninguém nos ensina a responder de outra forma, e por isso ninguém estranha quando uma mulher inteira se resume a uma lista de “de”.

Isto Já Foi Estudado, ou É Só Impressão Minha?

Já foi estudado, sim. Os investigadores chamam-lhe “role engulfment”, quando o papel engole a pessoa que o desempenha, mais depressa do que ela dá por isso, descrito por Skaff e Pearlin num estudo de 1992 publicado no The Gerontologist, da Oxford University Press. Encontraram esta perda de identidade com mais frequência em mulheres e em cônjuges, precisamente os papéis de esposa e de cuidadora que a maioria de nós carrega sem pestanejar.

Não é força de expressão, nem impressão minha depois de ver uma série de televisão. É um padrão documentado: quanto menos espaço social existe fora de um papel, maior a perda de identidade associada a ele. E essa perda, segundo o mesmo estudo, anda de mãos dadas com menos autoestima e mais sintomas depressivos.

Este Padrão Só Acontece a Mulheres, ou Também aos Homens?

Acontece a qualquer pessoa que carregue um papel sem nunca o pousar, mas o mesmo estudo encontrou mais casos em mulheres e em cônjuges do que noutros grupos. Não porque os homens sejam imunes. Porque as mulheres, historicamente, acumulam mais papéis ao mesmo tempo, e têm menos espaço social reservado só para elas fora desses papéis.

O David também tem os seus papéis: pai, marido, profissional. Mas ninguém lhe pergunta constantemente se está bem depois de cuidar de alguém, porque esse cuidado raramente lhe é atribuído como papel principal. A mim perguntam. E confesso: também sou eu que assumo, sem ninguém pedir, que aquele papel é meu.

Isto É Sinal de Fraqueza, ou de Falta de Auto-Conhecimento?

Não é nenhuma das duas coisas. É o que acontece a quem cuida demasiado bem dos papéis que desempenha, e nunca aprendeu a fazer esta pergunta a sós, sem ninguém à espera de resposta.

Não é fraqueza. É treino a menos numa coisa que ninguém nos ensina: parar de responder pelos outros e responder por nós. Não é preciso fazer disto um bicho de sete cabeças, nem esperar por uma crise para começares a notar o padrão.

Como Começo a Encontrar Quem Sou, Por Baixo de Todos os Papéis?

Começa por fazer a pergunta sozinha, sem audiência, sem ninguém à espera de uma resposta pronta. Não perguntes o que fazes. Pergunta quem és quando não estás a fazer nada por ninguém.

A primeira vez que tentei, descalcei uma bota que nem sabia que estava a usar há anos. Sentei-me sozinha, sem telefone, sem lista de tarefas, e obriguei-me a ficar ali até a cabeça parar de me oferecer papéis como resposta. Demorou. Não foi confortável.

Se quiseres começar por ti, esta noite, antes de dormires, tenta só isto, sem papéis pelo meio: o que sinto agora mesmo, sem ninguém à espera de mim?

Ainda não tenho a resposta toda. Mas tenho uma coisa que me ajudou a começar a encontrá-la: parar de procurar a resposta nos papéis e começar a procurá-la no silêncio entre eles. Esse silêncio incomoda no início. Depois começa a parecer-se com chegar a casa.

Perguntas Frequentes

Não é normal definirmo-nos pelos papéis que temos, como mãe ou profissão?
É comum, mas comum não é o mesmo que saudável. Os papéis descrevem o que fazes, não quem és. Confundir os dois deixa pouco espaço para te encontrares quando um papel muda, termina ou desaparece de repente.

Isto significa que devo deixar de ser mãe, enfermeira ou esposa?
Não. Os papéis não desaparecem, e não têm de desaparecer. A diferença é saberes que existes também fora deles, não apenas dentro, e que um não substitui o outro.

Como sei se um papel já “ganhou vida própria” em mim?
Um sinal claro é sentires que decides, falas ou reages a partir do papel antes mesmo de sentires o que realmente queres. Se a resposta automática vem sempre do “que devo fazer como mãe, enfermeira ou esposa”, e nunca do que sentes primeiro, o papel já está a falar por ti.

Quanto tempo demora a encontrar essa resposta sobre quem sou?
Não há prazo. Para muitas mulheres, incluindo eu, é um processo gradual, feito de perguntas repetidas a sós, não de uma resposta única que aparece de um dia para o outro.

Lê a seguir

Se sentes que já não sabes distinguir quem és de tudo o que fazes pelos outros, fiz um teste rápido para começares a separar isso: Quanto Pesa a Tua Máscara.

Até já…