Mulher de costas, sentada com as mãos em concha junto ao peito, numa sala tranquila

Porque Foges do Que Sentes (E Nenhum Ritual Resolve Isso)

Porque Foges do Que Sentes (E Nenhum Ritual Resolve Isso)

Publicado a 8 de Julho de 2026.

Vi um reel esta semana que me deixou com os pêlos eriçados que nem gato assanhado.

Uma mulher borrifava um spray de limpeza energética sobre si própria. A legenda dizia qualquer coisa sobre limpar a energia negativa e sentir-se imediatamente melhor.

Imediatamente.

E digo isto sem papas na língua: nenhuma prática energética a sério dá alívio instantâneo. A magia natural não funciona por descarga, funciona por camadas, devagar, com resultados que se constroem com regularidade, não com um borrifo. Quem te vende alívio imediato está a vender-te uma ideia errada sobre como isto funciona, mesmo com boa intenção por trás.

A minha primeira reacção foi “esta gente está doida.”

A segunda foi mais honesta.

Em tempos também fui essa mulher.

Não com um spray. Com um ritual que encontrei na net, com velas e intenção declarada e a convicção de que bastava fazer os passos certos para a vida mudar. Queria resultados imediatos. Queria não ter de sentar com o que estava a sentir.

Queria fugir.

E aqui está o que percebi sobre isto: a fuga a sentir não é fraqueza. É o que nos ensinaram.

Porque É Que Fugimos Tanto do Que Sentimos?

Fugimos do que sentimos porque vivemos numa sociedade que ensina as mulheres a servir, a agir, a estar disponíveis para todos menos para si próprias, e nunca ensina a sentar com o desconforto. O desconforto passa a ser tratado como um problema a eliminar depressa, em vez de um sinal a ouvir. Quando não sabemos o que fazer com o que sentimos, agarramo-nos a qualquer coisa que tire o peso rápido.

O spray. O ritual de cinco minutos. A técnica que promete alívio instantâneo. A solução que não exige que olhemos para dentro.

Não é falta de inteligência nem de discernimento. Passei a vida a engolir sapos sem dar por isso, a andar às três pancadas de manhã à noite, sem tempo nem licença para parar e perguntar o que aquele nó no estômago estava ali a fazer.

O Problema É Mesmo o Spray, ou É Outra Coisa?

O problema nunca é a ferramenta em si, seja um spray, uma vela ou um ritual de cinco minutos. O problema é o que a pessoa está a fugir de sentir quando recorre a essa ferramenta à procura de alívio imediato em vez de espaço para sentir. Uma ferramenta rápida usada como fuga trava o processo antes de ele começar.

Não estou aqui a apontar o dedo. Durante anos também não tinha palavra para isto. Chamo-lhe agora o que é: nunca nos ensinaram a estar connosco.

A energia amplifica o que está dentro. Se o que está dentro é fuga, amplifica fuga.

O ritual certo, a vela certa, o spray certo, nada disto chega lá sozinho. Não porque a magia natural não funcione. Porque a magia funciona exactamente como deve, e devolve-te o que trouxeste. Se trouxeste pressa para fugir de ti própria, é pressa e fuga que ela te devolve, com um cheiro agradável a lavanda por cima.

Como Sei Se Estou a Usar uma Prática Para Fugir em Vez de Sentir?

Sabes que estás a usar uma prática para fugir quando esperas dela um alívio imediato e ficas desiludida se o desconforto não desaparecer nos primeiros minutos. Uma prática usada para sentir não promete pressa nenhuma. Dá espaço, não dá atalho.

Pergunta-te isto antes do próximo ritual, ou banho, ou defumação: estou a fazer isto para sentir o que está aqui, ou para deixar de sentir o mais depressa possível? Não há resposta errada. Há só a resposta honesta, e é dessa que precisas.

O Que Fazer Em Vez de Fugir Quando o Desconforto Aparece?

Em vez de fugir do desconforto, o primeiro passo é nomeá-lo sem pressa de o resolver: dar-lhe um nome, sentir onde ele mora no corpo, e ficar ali um minuto antes de decidires o que fazer a seguir. Não é preciso resolver tudo de uma vez. É preciso parar de tratar o sentir como um problema.

Não vou dizer-te que isto se aprende numa tarde com um exercício de três passos. Não se aprende. É um músculo, e como todos os músculos, cresce devagar, com prática regular, não com um spray milagroso.

O corpo não tem um sítio especial para guardar o que não foi sentido. Guarda onde pode, e cobra a factura mais tarde, sob a forma de um cansaço que nenhum banho energético resolve sozinho.

Se sentes que já andas há demasiado tempo a descalçar esta bota, a apagar fogos por dentro sem nunca parares para sentir o que está mesmo ali, fiz um teste rápido que ajuda a começares a distinguir o que é teu do que carregas por hábito de fugir: Quanto Pesa a Tua Máscara.

O Sem Máscaras existe exactamente para isto: um espaço mensal, um texto e um áudio com a minha voz, para aprenderes a sentar contigo antes de qualquer ritual, sem pressa de resolver nada.

Perguntas Frequentes Sobre Fugir do Que Sentes

Fugir dos meus sentimentos é normal?
É comum, mas não é inevitável. É um padrão aprendido, sobretudo em mulheres ensinadas a estar disponíveis para todos menos para si próprias, e padrões aprendidos podem mudar com prática consciente.

Um spray ou ritual rápido pode ajudar a lidar com emoções difíceis?
Pode ajudar como complemento, nunca como substituto. Se for usado para evitar sentir em vez de para criar espaço para sentir, a emoção não resolvida continua por baixo, apenas adiada.

Como começo a sentar com o desconforto em vez de o evitar?
Começa por nomear o que sentes e notar onde o sentes no corpo, sem pressa de o resolver de imediato. É um hábito que se constrói aos poucos, não uma técnica que se aprende de uma vez.

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Até já…